LOLITA – VLADIMIR NABOKOV (RESENHA)

“Eu te amei, era um monstruoso pentápode, mas como te amava. Era desprezível, brutal, torpe – tudo isso e muito mais, mas je t´aimais, je t´aimais! E houve momentos em que sabia como você se sentia, e era um inferno sabê-lo, minha menina querida. Minha pequena Lolita, minha corajosa Dolly Schiller!”

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A RESENHA A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!

Está avisado…

Lolita é sem dúvidas um dos livros que eu mais senti dificuldade de resenhar. Na realidade protelei por meses essa resenha por ter sido um livro que despertou uma série de sentimentos controversos em mim! Há coisas que me fizeram gostar muito, como há coisas que quase fazem com que eu me arrependa de ter demandado meu precioso tempo para lê-lo.

Por falar em tempo de leitura, começo logo avisando que Lolita tem uma escrita EXTREMAMENTE arrastada! Nada quase nunca acontece, o que me fez levar muito, mas muito tempo para concluir essa leitura.

Estava plenamente ciente de que se tratava de um drama e dramas normalmente são mais… parados, se é que me entendem, mas esse livro fez com que eu me retratasse com A Outra Volta Do Parafuso por tê-lo achado monótono.

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Para os que não conhecem o livro, Lolita aborda a história de Humbert Humbert (o nome dele é assim mesmo, igual o Tio Montgomery Montgomery de A Sala dos Répteis, segundo livro de Desventuras Em Série), um homem adulto, maduro, que tem seus desejos sexuais voltados às crianças. Sim, ele é um pedófilo e isso fica bastante claro quando ele mesmo afirma que observa crianças e que já tentou até mesmo pagar a uma cafetina por sexo com uma criança, ou quando diz que ao escolher garotas de programa seleciona as com aparência mais jovem para que ao menos imagine que é uma criança.

A meu ver o livro é dividido em três partes. A primeira é quando Humbert, que tem lá seus problemas psicológicos, aluga um quarto em uma casa de família e se apaixona completamente por Dolores Haze, filha da dona, que tem nada mais nada menos que doze Anos. DOZE ANOS! Daí pra frente toda essa paixão se torna uma obsessão doentia de tal forma que Humbert afirma sentir dores físicas por não poder tomá-la para si e se casa com Charlotte Haze, mãe de Lolita, apenas para se tornar padrasto da garota e tê-la sempre por perto.

“Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. P.11”.

Nessa parte Humbert até tenta controlar seus desejos, observa, sonha e ousa algumas poucas caricias tímidas na menina.

Sabemos que esse livro se tornou um clássico depois de enfrentar muita polêmica! Só conseguiu ser publicado no ano de 1955, após dois anos de sua finalização, por ter sido rejeitado por várias editoras. Após sua publicação Lolita chegou a ser proibido em diversos países e ter suas cópias todas apreendidas.

No entanto, essa obra com certeza ficou imortalizada e acho que um dos fatores para isso é a dúvida que grande parte dos leitores carrega: Lolita de fato seduzia Humbert ou tudo não passava de devaneios de uma mente doente e perturbada?

“O que me leva à loucura é a natureza dupla desta ninfeta – talvez de todas as ninfetas; essa mistura, em minha Lolita, de uma infantilidade terna e sonhadora com uma espécie de estranha vulgaridade, derivada dos rostinhos atrevidos que aparecem nos anúncios e nas fotos de revista, das rosadas imagens de criadinhas adolescentes na Inglaterra”

Em alguns momentos fica claro o comportamento ousado de Lolita, a forma com que ela o tentava e as coisas que dizia, seu comportamento insolente e sensual. Porém em outras ocasiões a impressão passada é que ela é apenas uma criança mal criada que está completamente alheia aos sentimentos repulsivos que o personagem nutre por ela e a seriedade da situação.

Claro que atitude nenhuma justificaria as ações de Humbert para com Lolita!!! Apesar de tudo ela era uma criança e isso deveria ser respeitado. Ponto.

A segunda parte é quando, após a morte de Charlotte, Humbert “sequestra” Lolita e os dois saem viajando sem destino, conforme os devaneios que o personagem apresenta.

A partir daí Humbert já está mais ousado, ele não teme mais ser pego por Charlote e já não consegue mais se conter na presença da menina. Óbvio que era apenas uma questão de tempo até que os limites fossem ultrapassados e Humbert iniciasse um relacionamento sexual com a garota.

“Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Essa segunda parte para mim foi a mais difícil de ler! Tudo fica muito arrastado, eles viajam e viajam e viajam, Lolita se mostra a típica adolescente insuportável e insolente, talvez até como consequência da situação que está vivendo, e Humbert perde a cada dia mais a razão ficando possuído pelo ciúme e completamente cego.

A terceira e última parte, reafirmo, em minha opinião, é quando os dois se reencontram anos depois. É breve mas muito bem construída. Talvez tenha sido a parte dessa obra que eu mais apreciei porque tem um desdobramento surpreendente e maravilhosamente narrado.

O livro inteiro é uma carta que o próprio Humbert escreve anos depois ao júri que o está julgando, após ser preso por motivos de: não contarei, rsrs, e explica o que o levou a destruir a vida dessa menina e como tudo isso aconteceu.

Fiquei muito surpresa quando iniciei a leitura porque, acho que como todos que ainda não leram, tinha formado uma opinião em minha mente de que o livro seria muito obsceno, erótico e tudo que eu não gosto, porém, para minha surpresa, ele está muito longe de ser um desses romances eróticos que eu tanto odeio. Por mais que o tema central e toda a história gire nesse contexto sexualizado tudo é narrado com bastante pudor de modo não explícito.

“A verdade é que a obra não abriga um único termo obsceno, de fato, o impávido filisteu, condicionado pelas convenções modernas a aceitar sem repugnância uma ampla exibição de palavras chulas nos romances mais banais, ficará chocado com sua ausência nesta obra. P.6”

De forma geral, em minha humilde opinião, é um livro um pouco chato e insosso, mas que merece ser lido, porque ao seu próprio modo é ótimo. Entendem? Porém, jamais após uma ressaca literária, rsrs. Digamos que eu não gostei tanto, mas amei!

Segue para finalizar, um trecho que diz muito sobre o livro e os conflitos internos de Humbert e Lolita:

“Lembro certas ocasiões (icebergs no paraíso) em que, saciado dela – após fabulosas e dementes investidas que me deixavam exausto, o corpo listrado de azul na luz que penetrava pelas persianas do motel -, eu a tomava nos braços com (enfim) um mudo gemido de ternura humana (sua pele brilhando com reflexos de neon, seus cílios cor de fuligem emaranhados, seus olhos sérios e cinzentos mais vazios do que nunca – para todos os efeitos uma pequena paciente recém-saída da sala de operação, atordoada (ainda anestesia); e a ternura, penetrando mais fundo, transformava-se em vergonha e desespero, e eu embalava a leve e longínqua Lolita nos meus braços de mármore, e gemia nos seus cálidos cabelos, e a acariciava a esmo implorando mudamente seu perdão e, no auge dessa onda de ternura tão humana, tão sofrida e abnegada (com minha alma literalmente pairando sobre seu corpo nu, prestes a arrepender-se), de repente, ironicamente, horrivelmente, o desejo voltava a crescer – e “ah, não”, diria Lolita com um suspiro dirigido aos céus, e no instante seguinte a ternura e a listras azuis se partiam em mil pedaços.”.

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Título: Lolita

Título Original: Lolita

Autor: Vladimir Nabokov

Editora: Página Viva

Páginas: 322

Ano de Publicação: 2003

Gênero: Romance/Drama

Avaliação: 1 ESTRELA1 ESTRELA1 ESTRELA1 ESTRELA

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