LEIA AGORA UM TRECHO DE CHAMPION [#3 Trilogia Legend] – Marie Lu

Capítulo 1

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DAY

De todos os disfarces que já usei, este talvez seja meu favorito.

Cabelo ruivo-escuro, bastante diferente do louro-claro habitual, cortado pouco abaixo dos ombros e preso em um rabo de cavalo, lentes verdes que parecem naturais quando postas sobre meus olhos azuis. Camisa de colarinho meio amassada, com minúsculos botões prateados reluzindo no escuro, uma jaqueta militar fina, calças pretas e botas com biqueiras de aço, um grosso cachecol cinzento em volta do pescoço, queixo e boca. Um boné escuro de soldado enfiado na testa e uma tatuagem escarlate pintada na minha face esquerda me transformam em alguém estranho. Além disso, uso um fone de ouvido e um microfone, por insistência da República.

Em qualquer outra cidade, eu provavelmente atrairia ainda mais olhares do que de costume por causa da enorme e escandalosa tatuagem, nem um pouco discreta, tenho que admitir. Aqui em São Francisco, no entanto, sou mais um na multidão. A primeira coisa em que reparei quando Éden e eu nos mudamos pra cá, há oito meses, foi a nova moda seguida pelos jovens: desenhos pretos ou vermelhos pintados no rosto, alguns pequenos e delicados, como o emblema da República ou algo parecido nas têmporas, outros imensos, como o mapa da República. Esta noite, escolhi uma tatuagem genérica porque não sou suficientemente leal à nação para estampar minha lealdade bem na minha cara. Deixo isso para a June. Em vez disso, meu desenho traz chamas estilizadas. Isso basta.

Minha insônia está a toda hoje, por isso, em vez de dormir, estou caminhando sozinho num bairro chamado Marina, que me parece ser o mais montanhoso, o equivalente em São Francisco ao setor Lake, de Los Angeles. A noite está fresca e silenciosa, e cai um leve chuvisco vindo da baía. As ruas estreitas reluzem com a garoa e estão esburacadas. Os prédios que se elevam em ambos os lados da rua – a maioria alta o bastante para desaparecer nas nuvens baixas desta noite – são ecléticos, pintados de tons desbotados de vermelho, dourado e preto. As laterais são reforçadas por enormes vigas de aço para resistir aos terremotos que acontecem mês sim, mês não. Há telões com cinco ou seis andares de altura, a cada dois quarteirões, alardeando a imensa quantidade de notícias de sempre. O ar é salgado e amargo, e cheira a fumaça e resíduos industriais misturados à água do mar e um toque de peixe frito. Às vezes, quando dobro uma esquina, chego tão perto da beira d’água que minhas botas se molham. Nesse lugar, a terra se inclina diretamente até a água, e centenas de prédios surgem meio submersos no horizonte. Sempre que olho para a baía, também consigo ver as Ruínas da Golden Gate, os restos retorcidos de uma antiga ponte empilhados no outro lado da orla. Cruzo com algumas pessoas de vez em quando, mas a maior parte da cidade está adormecida. Fogueiras espalhadas iluminam vielas, reunindo os moradores de rua do bairro. Não é muito diferente do que ocorre no Lake.

Quer dizer, acho que agora existem algumas diferenças. Como, por exemplo, o Estádio de Provas de São Francisco, vazio e apagado a distância. Menos guardas nos bairros pobres. As pichações da cidade… Sempre se pode ter uma ideia de como as pessoas estão se sentindo ao se olhar para as pichações nos muros. Muitas frases que tenho visto ultimamente apoiam o novo Eleitor da República. “Ele é nossa esperança”, diz uma mensagem rabiscada na lateral de um edifício. Outra, pintada na rua, estampa: “O Eleitor vai nos tirar da escuridão.” Acho isso otimista demais, mas suponho que as frases sejam um bom sinal. Anden deve estar fazendo alguma coisa certa. Ainda assim, de vez em quando, leio grafites como “O Eleitor é um farsante”, ou “Marionetes”, ou “O Day que conhecemos está morto”. Não sei não… Às vezes parece que essa nova confiança entre Anden e o povo não passa de um fino cordão… E eu sou esse cordão. Pode ser também que as pichações favoráveis sejam falsas e tenham sido feitas por agentes do governo. Por que não?

Nada é impossível quando se trata da República.

Como já era de se esperar, Éden e eu fomos colocados em um apartamento bem luxuoso, num bairro chamado Pacífica. Lucy, nossa guardiã, mora com a gente. Alguém precisava vigiar o criminoso-mais-procuradoda-República-que-virou-herói-nacional, não é mesmo? Lembro bem que não fui muito com a cara da Lucy – uma senhora de cinquenta e dois anos, mal-encarada e corpulenta, vestida com as cores clássicas da República –, quando ela apareceu na nossa casa em Denver.

– A República me designou para tomar conta de vocês dois – disse, ao passar pela porta. Seus olhos se fixaram imediatamente no Éden. – Especialmente do menorzinho.

Sei…

Não gostei nada dessa história. Pra começar, precisei de uns dois meses até conseguir permitir que meu irmão ficasse um minuto longe de mim. Comíamos junto, dormíamos junto; ele nunca estava sozinho. Era tanta paranoia que, até quando ele ia ao banheiro, eu ficava vigiando do outro lado da porta, como se soldados da República pudessem dar um jeito de sugá-lo por uma abertura, levá-lo para um laboratório e prendê-lo a um monte de máquinas.

– Éden não precisa da senhora – foi a primeira coisa que disse à Lucy. – Ele tem a mim. Eu tomo conta dele.

Mas minha saúde começou a se deteriorar depois dos dois primeiros meses. Tinha dias em que eu me sentia ótimo; em outros, ficava de cama com uma enxaqueca de rachar. Nessa hora, Lucy assumia o comando. Depois de muita briga, ela e eu finalmente chegamos a um acordo. Em minha defesa, ela faz uns bolos de carne que são o máximo. Quando nos mudamos para São Francisco, ela veio conosco.

Lucy dá toda a orientação que Éden precisa e cuida da minha medicação.

Quando finalmente me canso de bater perna, reparo que vaguei para longe do bairro Marina e entrei num bairro de gente com grana. Paro em frente a uma boate com o nome OBSIDIAN LOUNGE gravado numa placa de metal acima da porta. Deslizo contra a parede e me sento, com os braços apoiados nos joelhos, sentindo as vibrações da música. Minha perna metá- lica está gélida sob o tecido das calças. Nos muros à minha frente, picharam, com letras vermelhas: “Day = Traidor”. Suspiro, tiro uma latinha prateada do bolso e pego um cigarro comprido. Passo o dedo nos dizeres HOSPITAL CENTRAL DE SÃO FRANCISCO impressos nele. São cigarros receitados pelo médico, tá bem? Com dedos trêmulos, ponho o cigarro na boca e o acendo. Fecho os olhos, dou uma tragada. Pouco a pouco me perco nas nuvens de fumaça azul, esperando que os efeitos alucinógenos me envolvam.

Não demora muito para isso acontecer. Em pouco tempo desaparece a dor de cabeça constante e aguda, e o mundo ao meu redor reflete um brilho turvo que sei não ser causado apenas pela chuva. Uma garota está sentada ao meu lado: é Tess.

Ela me dá o sorriso maroto que eu conheço bem desde as ruas de Lake.

– Alguma novidade transmitida pelos telões? – me pergunta ela, apontando para uma tela do outro lado da rua.

Expiro fumaça azul e preguiçosamente balanço a cabeça.

– Nenhuma; quer dizer, vi algumas manchetes relacionadas aos Patriotas, mas em geral é como se vocês tivessem desaparecido do mapa. Onde vocês estão? Para onde vão?

Em vez de responder, Tess me pergunta:

– Sente saudade de mim?

Contemplo sua imagem trêmula. Ela está igualzinha ao que me lembrava: o cabelo castanho-avermelhado preso numa trança desajeitada, os olhos grandes e luminosos, suaves e gentis. A menininha Tess. Quais foram minhas últimas palavras a ela, quando abortamos a tentativa dos Patriotas de assassinar o Anden? Por favor, Tess; não posso abandonar você aqui. Mas foi exatamente isso que eu fiz.

Viro o corpo e dou mais uma tragada no cigarro. Se sinto saudade dela?

– Todos os dias.

– Você tem procurado por mim – afirma ela, se aproximando. Quase dá pra sentir seu ombro junto ao meu. – Eu vi você examinando os telões e as radiofrequências em busca de notícias, escutando às escondidas nas ruas… Mas os Patriotas estão se escondendo neste momento.

Óbvio que eles estão em esconderijos. Por que atacariam, agora que Anden está no poder e um tratado de paz entre a República e as Colônias já foi fechado? Qual poderia ser sua nova causa? Não tenho ideia. Talvez eles não tenham nenhuma nova causa. Talvez nem existam mais.

Murmuro à Tess:

– Queria muito que você voltasse. Ia ser muito legal te ver de novo.

– Você não está com a June?

Quando ela pergunta isso, sua imagem desaparece e é substituída pela da June, com seu comprido rabo de cavalo, e os olhos escuros que brilham com pinceladas de dourado, sérios e críticos, sempre avaliando. Debruço a cabeça nos joelhos e fecho os olhos. A mera ilusão da June é suficiente para me causar uma dor lancinante no peito. Inferno! Como sinto falta dela.

Penso em como me despedi dela em Denver, antes de Éden e eu nos mudarmos para São Francisco. – Tenho certeza de que nós vamos voltar – disse a ela no meu microfone, tentando preencher o silêncio constrangedor entre nós –, quando o tratamento do Éden chegar ao fim. – Evidentemente, isso era mentira. Estávamos indo para São Francisco para eu me tratar, não o Éden, mas June não sabia disso, portanto só disse: – Voltem logo.

Isso foi há quase oito meses, e eu não tinha notícias dela desde então. Não sei se porque cada um de nós hesita em incomodar o outro, com medo de que o outro não queira falar, ou talvez porque nós dois sejamos orgulhosos demais para procurar o outro primeiro. Vai ver ela não está muito interessada. Mas todo mundo sabe como essas coisas funcionam: a gente fica uma semana sem fazer contato, depois um mês, e logo passou tempo demais e ligar para ela agora seria estranho e meio sem propósito. Por isso, não vou entrar em contato com ela. Além do mais, iria dizer o quê? Não se preocupe, os médicos estão fazendo de tudo pra salvar minha vida. Não se preocupe, estão tentando reduzir a área do meu cérebro com problema com uma pilha de remédios, antes de tentar a operação. Não se preocupe, é possível que a Antártida permita que eu tenha acesso a seus hospitais de ponta. Não se preocupe, vou ficar muito bem.

Qual é o sentido de manter contato com a garota pela qual você é apaixonado, quando se está morrendo?

Esse lembrete faz minha nuca latejar de dor. É melhor assim, digo a mim mesmo pela centésima vez. E é mesmo. Não a vejo há muito tempo, o que esmaece a lembrança de como nos conhecemos, e penso cada vez menos na ligação dela com as mortes da minha família.

Ao contrário da imagem de Tess, por alguma razão a de June nunca diz uma palavra. Tento ignorar a miragem reluzente, porém ela se recusa a ir embora. Até a miragem dela é teimosa!

Eu finalmente me levanto, apago a guimba de cigarro na calçada e atravesso a porta que leva ao Obsidian Lounge. Talvez a música e as luzes me façam esquecer June.

Por um instante, não enxergo nada. A boate está um breu, e o som é ensurdecedor. Uma dupla de soldados parecendo armários me para na hora. Um deles segura meu ombro com firmeza e pergunta:

– Nome e setor.

Não me interessa divulgar minha verdadeira identidade:

– Cabo Schuster, Aeronáutica. – Deixo escapar um nome qualquer e a primeira das Forças Armadas que me vem à cabeça. Sempre penso primeiro na aeronáutica, basicamente por causa de Kaede. – Estou lotado na Base Naval Dois.

O soldado assente e diz:

– A garotada da aeronáutica fica lá nos fundos, à esquerda, perto dos banheiros. Se você provocar alguma briga com o pessoal do exército, te tiro da boate e seu comandante vai ficar sabendo logo de manhã, entendido?

Abaixo a cabeça, concordando, e os soldados me deixam passar. Percorro um corredor escuro e atravesso uma segunda porta, e então me misturo à multidão e às luzes intermitentes.

A pista de dança está apinhada de pessoas com camisas soltas e mangas enroladas, vestidos formando pares com uniformes amarrotados. Encontro as cabines da aeronáutica nos fundos da sala.

Felizmente, várias estão desocupadas. Me enfio numa delas, descanso as botas nos assentos almofadados e recosto a cabeça. Pelo menos a imagem de June desapareceu. A música alta faz com que meus pensamentos se dispersem.

Estou na cabine há apenas alguns minutos quando uma garota atravessa a pista de dança lotada e vem até mim. Ela está com o rosto avermelhado, e os olhos são brilhantes e maliciosos. Quando olho de relance para trás, reparo num grupo de garotas rindo e nos observando. Forço um sorriso. Costumo gostar de receber atenção em boates, mas às vezes quero apenas fechar os olhos e deixar que o caos me leve para longe.

Ela se debruça e comprime os lábios no meu ouvido: – Desculpa te incomodar – grita, mais alto do que o barulho –, mas minhas amigas querem saber se você é o Day.

Já me reconheceram? Eu me encolho instintivamente e balanço a cabeça para que as outras possam ver:

– Quem me dera! – respondo com um sorriso sarcástico. – Mas obrigado pelo elogio.

O rosto da garota é quase imediatamente coberto por sombras, mas mesmo assim dá pra ver que ela está corando de raiva. Suas amigas soltam uma gargalhada. Parece que nenhuma delas acreditou na minha negativa.

– Quer dançar? – pergunta a guria. Ela relanceia sobre o ombro em direção às luzes azuis e douradas, e depois volta a me encarar. Suas amigas devem tê-la desafiado a dar em cima de mim.

Tento inventar uma desculpa educada, mas aí presto atenção na aparência da garota. A boate está escura demais para que eu possa vê-la direito, e tudo que consigo enxergar são lampejos da iluminação fraca em sua pele e no comprido rabo de cavalo, os lábios brilhantes entreabertos num sorriso, o corpo bonito num vestido curto e botas militares. Desisto de expressar minha recusa. Alguma coisa nela me lembra a June. Nos oito meses desde que June se tornou a Primeira Cidadã, não me empolguei muito com nenhuma garota, mas agora, com essa sósia indistinta pedindo para dançar comigo, eu me permito sentir esperança de novo e digo:

– Tudo bem, por que não?

A garota dá um largo sorriso. Quando saio da cabine e pego sua mão, suas amigas gritam surpresas, celebrando a conquista. A menina passa comigo por elas e rapidamente nos misturamos à multidão e abrimos um minúsculo espaço bem no centro da pista.

Eu a comprimo contra mim, ela passa a mão na minha nuca, e começamos a dançar segundo o som barulhento da música. Reconheço que “ela é bonitinha”, ofuscado no mar de luzes e corpos.

A canção muda, e depois muda de novo. Não sei bem quanto tempo ficamos atordoados com isso, mas quando ela se debruça para a frente e roça os lábios nos meus, fecho os olhos e deixo que me beije. Chego a sentir um frio na espinha. Ela me beija duas vezes; sua boca é macia e úmida, e a língua tem gosto de vodca e frutas. Ponho a mão na parte inferior das costas da moça e a puxo para mais perto, até seu corpo ficar praticamente colado ao meu. Os beijos dela ficam mais intensos. Ela é June, digo a mim mesmo, vivendo minha fantasia. Com os olhos fechados e a cabeça ainda atordoada pelas substâncias alucinógenas do meu cigarro, acredito nessa ilusão por um momento: consigo visualizá-la me beijando nesta boate e tirando todo o ar dos meus pulmões. A moça provavelmente percebe a mudança dos meus movimentos, minha carência e meu desejo, porque sorri ao me beijar. Ela é June.

É o cabelo escuro de June que roça no meu rosto, os longos cílios de June que tocam minhas bochechas, o braço de June que está segurando meu pescoço, o corpo de June colado ao meu. Um gemido suave escapa da minha boca.

– Vamos lá fora – suas palavras são insinuantes – respirar um pouco de ar puro.

Há quanto tempo não transo? Não quero sair da boate, porque isso quer dizer que vou precisar abrir os olhos e ver que June foi embora, substituída por essa garota que não conheço. Ela, porém, me puxa pela mão e sou forçado a olhar em torno. É claro que June não está por aqui. As luzes da boate cintilam, e não consigo enxergar nada por um tempo. A moça me leva pelos grupos de dançarinos, pelo corredor escuro da boate, então saí- mos por uma porta dos fundos sem identificação e paramos num beco silencioso. Alguns holofotes de luz pouco intensa iluminam o local e causam um brilho esverdeado e soturno.

Ela me empurra para a parede e beija meu pescoço. Sua pele é úmida, e percebo que ela se arrepia ao meu toque. Eu também a beijo, e ela sorri surpresa quando eu inverto nossa posição e a encosto no muro.

Ela é June, digo a mim mesmo repetidas vezes. Meus lábios beijam vorazmente seu pescoço, e sinto cheiro de fumo e perfume.

Leves chiados de estática que lembram chuva e ovos fritos soam no meu fone de ouvido. Tento ignorar a chamada, mesmo quando a voz de um homem me enche os ouvidos. Isso é que é um estraga-prazer!

– Sr. Wing.

Nem respondo. Se manda! Estou ocupado!

Alguns segundos depois, a voz recomeça:

– Sr. Wing, aqui é o Comandante David Guzman, da Décima Quarta Patrulha da Cidade de Denver. Sei que o senhor está me ouvindo.

Ah, esse cara. Esse infeliz desse comandante é sempre encarregado de tentar me contatar.

Suspiro e me afasto da garota:

– Rapidinho – peço, arfante. Faço uma expressão de pedido de desculpa e aponto para meu ouvido. – Me dá um minuto?

Ela sorri e alisa o vestido.

– Vou te esperar lá dentro – responde. – Depois me procura. – Em seguida abre a porta e volta à boate.

Ligo o microfone e começo, lentamente, a andar para cima e para baixo no beco.

– O que é? – sussurro, aborrecido.

O comandante suspira no fone de ouvido e começa a falar:

– Sr. Wing, é preciso que o senhor esteja em Denver amanhã à noite, para comparecer ao Baile do Dia da Independência, no Capital Tower. Como sempre, sinta-se à vontade para recusar esta solicitação, para variar – resmunga ele baixinho. – Contudo, esse banquete é uma reunião excepcional de extrema importância. Se o senhor quiser comparecer, um jato particular estará à sua espera pela manhã.

Uma reunião excepcional de extrema importância? Alguém já ouviu tantas palavras pomposas numa só frase? Reviro os olhos. Mais ou menos a cada mês, recebo um convite para um espalhafatoso evento na capital, como um baile para os generais de alta patente ou para as comemorações que se realizaram quando Anden finalmente resolveu acabar com as Provas. Mas a única razão pela qual eles querem que eu compareça a esses eventos é poderem me exibir e lembrar ao povo que “Caso vocês tenham esquecido, Day está do nosso lado!”. Não abuse da sorte, Anden.

– Sr. Wing – diz o comandante, quando me mantenho calado, como se ele estivesse recorrendo a um argumento definitivo: – O glorioso Eleitor em pessoa faz questão de sua presença. Assim como a Primeira Cidadã.

A Primeira Cidadã.

Minhas botas rangem quando paro no meio do beco. Esqueço até de respirar.

Não se anime muito – afinal de contas, há três Primeiros Cidadãos, e ele pode estar se referindo à outra mulher. Passam-se alguns segundos até eu finalmente perguntar:

– Qual delas?

– Aquela com quem você realmente se importa.

Minhas bochechas ardem ao tom provocador da voz dele e indago:

– June?

– Sim, a srta. June Iparis – responde o comandante. Ele parece aliviado por ter finalmente despertado minha atenção. – Desta vez ela quis que o pedido fosse pessoal; gostaria muito de que o senhor comparecesse ao banquete no Capital Tower.

Minha cabeça dói, e me esforço para estabilizar a respiração. Todos os pensamentos sobre a garota da boate desaparecem no mesmo instante. Faz oito meses que June não solicita minha presença; esta é a primeira vez que ela pede que eu compareça a um evento público.

– Qual o motivo da celebração? – pergunto. – É apenas uma festa do Dia da Independência? Por que é tão importante?

O comandante hesita e diz:

– Trata-se de assunto de segurança nacional.

– Isso quer dizer o quê exatamente? – Meu entusiasmo inicial lentamente diminui. Talvez ele esteja apenas blefando. – Comandante, estou no meio de um compromisso muito importante. Tente me convencer de novo amanhã de manhã.

O comandante pragueja baixinho e diz:

– Tudo bem, Sr. Wing. Como quiser.

Ele resmunga alguma coisa que não consigo entender e desliga. Fecho a cara, desesperado, quando minha animação inicial se transforma em profunda decepção. Talvez eu deva ir para casa. Está mesmo na hora de eu ver como está o Éden. Esse cara devia estar fazendo uma gracinha de mau gosto. Não duvido nada que ele estivesse mentindo sobre o pedido de June, porque se ela quisesse tanto assim que eu voltasse à capital, ela…

– Day?

Ouço outra voz no meu fone de ouvido e fico paralisado.

Será que os efeitos alucinógenos dos remédios não passaram? Será que acabei de imaginar ter escutado a voz dela? Embora eu não a tenha ouvido há quase um ano, eu a reconheceria em qualquer lugar, e apenas o som é o bastante para evocar a imagem de June à minha frente, como se a tivesse encontrado por acaso neste beco. Por favor, não deixe que seja ela. Por favor, deixe que seja ela.

Será que sua voz sempre vai ter esse efeito sobre mim?

Não tenho ideia de quanto tempo permaneci paralisado assim, mas deve ter sido por algum tempo, porque ela insiste:

– Day, sou eu, June. Está me ouvindo?

Um calafrio percorre meu corpo. Não estou imaginando coisas! É ela mesmo!

Seu tom de voz está diferente daquele do qual me lembro: é hesitante e formal, como se ela estivesse falando com um desconhecido. Finalmente consigo me recompor e ligo o microfone:

– Estou sim – respondo. O próprio tom da minha voz também está diferente: hesitante e formal, como o dela. Espero que June não perceba o ligeiro tremor.

Há uma pequena pausa do outro lado antes de June continuar:

– Oi! – Depois de um longo silêncio, ela pergunta: – Como você está?

De repente sinto uma avalanche de palavras se formando dentro de mim, ameaçando escapar. Quero despejar tudo: tenho pensado em você todos os dias, desde nossa última despedida; desculpe não ter feito contato; queria muito que você tivesse me procurado. Sinto saudade de você. Sinto sua falta.

Mas não falo nada; em vez disso, só consigo dizer:

– Muito bem. E aí?

Ela faz uma pausa e depois diz:

– Ah, que ótimo! Desculpe ligar tão tarde; aposto que você está tentando dormir, mas o Senado e o Eleitor me encarregaram de lhe fazer este pedido pessoalmente. Eu não o faria se não achasse que é muito importante. Denver vai realizar um baile pelo Dia da Independência e, durante o evento, vamos fazer uma reunião de emergência e precisamos que você participe dela.

– Por quê?

Estou recorrendo a respostas curtas e rasteiras, pois só consigo falar assim, ao ouvir a voz de June.

Ela expira, causando um leve ruído de estática no fone de ouvido, e diz:

– Você já deve ter ouvido falar no tratado de paz que está sendo esbo- çado entre a República e as Colônias, não é?

– Já, claro.

Todo mundo no país tem conhecimento disso: a maior ambição do nosso precioso e jovem Anden é acabar com esse combate que vem sendo travado há muito tempo. Até agora, parece que as coisas estavam indo bem, e prova disso é que a guerra na frente de batalha está num silencioso impasse há quatro meses. Ninguém podia supor que chegaria esse dia, nem se podia esperar que os estádios da Prova permanecessem sem ser usados em todo o país.

– Parece que o Eleitor está a caminho de se tornar o herói da República, né?

– Não fale antes do tempo. – O tom de June se entristece, e visualizo sua expressão através do fone de ouvido. – Ontem recebemos uma transmissão raivosa das Colônias. Há uma praga que está se propagando nas cidades no front da guerra, e eles acreditam que tenha sido causada por alguma das armas biológicas que enviamos pelas divisas das cidades. Até já rastrearam os números de série nos cartuchos das armas que eles julgam ter provocado essa praga.

Suas palavras são abafadas pelo choque na minha mente, a neblina que está trazendo de volta lembranças de Éden e de seus olhos negros sangrando, do menino naquele trem que estava sendo usado como parte da frente de batalha.

– Isso quer dizer que o tratado de paz foi descartado?

– Isso mesmo. – June baixa o tom de voz. – As Colônias alegam que a praga é um ato oficial de guerra contra elas. –

E o que isso tem a ver comigo?

Mais uma pausa longa e ameaçadora, que me enche de um medo tão grande que sinto meus dedos se entorpecerem. A praga está acontecendo. O círculo está se fechando.

– Eu conto quando você chegar aqui – diz June finalmente. – É melhor não falar sobre o assunto em fones de ouvido.

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Título: Champion – Do Caos e da Lenda Surgirá um Campeão

Título Original: Champion – A Legend Novel

Autor: Marie Lu

Editora: Rocco

Páginas: 302

Ano de Publicação: 2013

Gênero: Aventura /YA – Jovem Adulto / Distopia

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