LEIA AGORA UM TRECHO DE CLARO ENIGMA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Capítulo 1

DISSOLUÇÃO

 
Carlos Drummond de AndradeEscurece, e não me seduz

tatear sequer uma lâmpada.

Pois que aprouve ao dia findar,

aceito a noite.

 

E com ela aceito que brote

uma ordem outra de seres

e coisas não figuradas.

Braços cruzados.

 

Vazio de quanto amávamos,

mais vasto é o céu. Povoações

surgem do vácuo.

Habito alguma?

 

E nem destaco minha pele

da confluente escuridão.

Um fim unânime concentra-se

e pousa no ar. Hesitando.

 

E aquele agressivo espírito

que o dia carreia consigo,

já não oprime. Assim a paz,

destroçada.

 

Vai durar mil anos, ou

extinguir-se na cor do galo?

Esta rosa é definitiva,

ainda que pobre.

 

Imaginação, falsa demente,

já te desprezo. E tu, palavra.

No mundo, perene trânsito,

calamo-nos.

E sem alma, corpo, és suave.

 

Título: Claro Enigma

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 133

Ano de Publicação: 1951

Gênero:  Clássicos / Literatura Nacional/ Poesia / Carlos Drummond de Andrade / Claro Enigma

 

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